Notícia

 
18.fev.2016

Canções que pensam (pensaram) o Brasil, dia 17 de março com José Miguel Wisnik.

CANÇÕES QUE PENSAM (PENSARAM) O BRASIL

 

Recentemente as redes sociais “bombaram” com uma música que começa assim:

 

“Ai, meu Deus, me dei mal / bateu à minha porta o japonês da Federal…

Dormia o sono dos justos / raiava o dia, eram quase seis…

Escutei um barulhão, avistei um camburão, abri a porta, o japonês então falou:

Vem prá cá, você ganhou uma viagem ao Paraná.”

 

É uma marchinha na melhor tradição das sátiras carnavalescas. Reflete a perplexidade de ver, finalmente, poderosos políticos e empresários que talvez não estivessem acima de qualquer suspeita, mas certamente pareciam estar acima de qualquer punição, escoltados a caminho da carceragem pelo simpático oriental. E num tempo que parece estar dominado pelo rancor e pela ira é confortador ver o recurso, muito mais inteligente e eficaz, da crítica bem humorada.

A arte sempre catalisou os sentimentos da sociedade, e a música é a forma de expressão artística brasileira por excelência. Por isso, o Graciosa Country Club receberá na noite de 17 de março o músico, compositor, ensaísta e professor de Literatura Brasileira da USP, José Miguel Wisnik. Ele virá falar (e cantar) as canções que pensam (pensaram) o Brasil.

A música tem importância vital em nossa cultura, em nossos relacionamentos, define a maneira como vemos o mundo. É um “gatilho” poderoso de emoções e parece guardar a crônica delas.

Wisnik apresentará as canções que, em dados momentos, disseram o que se pensava em lares, bares, esquinas, campos, praias e escolas. E poucos intelectuais reúnem credenciais tão fortes para falar sobre esse tema; além do currículo acadêmico, mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada, autor de muitos livros, Wisnik é um dos mais respeitados compositores brasileiros. Parceiro de Caetano Veloso, Paulo Leminski, Tom Zé, Gregório de Matos (!), Ná Ozzetti, Arnaldo Antunes.

Em parceria com o músico Carlos Núñez, fez um trabalho prodigioso sobre peças medievais da Galícia e do norte de Portugal, usando partituras da época. São canções do século XIII, e nelas falam sempre mulheres apaixonadas, que confidenciam a saudade do amado com amigas ou com a mãe, e até mesmo com o mar, onde se banham para acalmar a paixão. Com essa obra o Grupo Corpo realizou com coreografia de Rodrigo Pederneiras um de seus mais belos espetáculos: “Sem mim”, de 2011. Para a peça “onqotô” do mesmo Grupo Corpo, musicou poemas de Gregório de Matos, de quem realizou a antologia “Poemas escolhidos”, referência do vestibular da Universidade Federal do Paraná.

Destaca-se a bela “Mortal loucura”, cantada por Caetano Veloso:

 

Na oração, que desaterrra… a terra.

Quer Deus que a quem está o cuidado… dado.

Pregue que a vida é emprestado… estado.

Mistérios mil que desenterra… enterra.

 

Quem não cuida de si, que é terra,… erra.

Que o alto Rei, por afamado… amado.

É quem lhe assiste ao desvelado… lado.

Da morte ao ar não desaferra… aferra.

 

Quem do mundo a mortal loucura… cura.

A vontade de Deus sagrada… agrada.

Firmar-lhe a vida em atadura… dura.

 

Ó voz zelosa, que dobrada… brada.

Já sei que a flor da formosura,… usura.

Será no fim dessa jornada… nada.

 

Wisnik escreveu recentemente no jornal “O Globo”: “Não é difícil perceber que o espaço público no Brasil está congestionado por pressões ideológicas que se tornaram pressões de interesse que se tornaram pressões em estado puro – pressões pelas pressões. Essa atmosfera tem algo de insustentável quanto mais falta espaço para a respiração de ideias e para aquela zona de liberdade supostamente instaurada pela arte. Várias vezes repeti aqui o meu único bordão, o de que a mídia brasileira caminhou para a redução de todos os assuntos, problemas e dimensões da cultura a modalidades de vendagem, moda, comportamento e polêmica de superfície. Se esse é um estado geral do mundo, maiores os seus efeitos num país de cultura viva, mas de baixo letramento”.

 

se tudo começou no big bang / só tinha que acabar no big mac  (Caetano Veloso / José Miguel Wisnik).

 

 

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

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